Habitando a teia frágil entre o real e o fantástico, os contos desta colecção desconstroem os mitos e rituais das relações humanas através da estranheza intimista e do humor negro.
As quatro partes — «Estranhuário», «Laminário», «Fadário» e «Absurdário» — agrupam, respectivamente, as narrativas quotidianas, as histórico-sociais, as fantasias e as sátiras.
— É para o Roseiral, se faz favor — enunciou, gerindo temerosamente o espaço tomado pelas botas na retaguarda do condutor. A viatura entrou em movimento, despertando o alarme do cinto. Tim. Tim. O coração de Carlota pôs-se-lhe ao ritmo enquanto, atabalhoada, deitava as mãos à faixa negra e puxava, puxava. Não entrava: não era aquele o trinco. Era o do lugar do meio. O que lhe pertencia estava enterrado nas ranhuras entre os bancos repletas de cotão, areias e pele morta. Tim. Tim. O clique final recuperou-a da urgência fria e incómoda. Cheirava a hortelã-pimenta. Ajeitou-se na cadeira, sentindo ainda o peso das botas para as quais mal tinha espaço e, finalmente, olhou o condutor no retrovisor.
Ele olhava de volta.
(«O Roseiral», página 9)
revisão: Victor Negri
páginas: 168 páginas
ano de edição: 2026
isbn: 978-989-36779-9-5